SOBRE






O cabelo totalmente emaranhado era reflexo de uma noite de sono mal dormida. Os cachos, antes glamourosos e brilhantes, estavam tão desarrumados quanto sua cama. Um banho resolveria este problema. Por enquanto, um prendedor posto ao lado da cama na noite passada, conteria aqueles chachos grandes e pequenos temporariamente. 
Ela espreguiçou-se. O corpo não era esguio, muito menos reto ou com muitas curvas. Talvez, aproximadamente normal definiria. Não possuía quadris largos. Mas, possuía uma cintura quase fina. Gostava dessa mistura. Quadris retos, cintura fina. E também aquelas malditas ondulações um pouco abaixo da cintura - chamadas de pneus, atrapalhavam é claro. Porém, querendo ou não, faziam parte dela. Era um lembrete constante de que ela não se encaixava nos padrões de beleza. Gostava disto também. Ser diferente da habitual beleza.
Não era alta. A estatura é mediana. Quando criança sonhava em ser alta e magra. Como uma modelo. Bobinha. Mal sabia que se sentiria bem sendo quase baixa e não tão magra. Mal sabia também que, às vezes sofreria ao tentar entrar em alguma roupa. Principalmente ao provar sapatos.
Não que seu pé fosse muito grande. Ele era. Mas, tinha aquela beleza de pés bem cuidados.Apesar de serem feios. Passou por momentos em que enfiou seus pés em sapatos 37, calçando 39. Tamanho era o ódio e a vergonha de ser pezuda. Como?!
Ah, também tinham as mãos. Eram grandes. Felizmente, mal dava para perceber. Como os pés, também eram bem cuidadas. E delicadas. Por isso, não passou por tentativas fúteis de escondê-las.
Essa tendência de grandeza, veio de seu pai. Um homem bem alto e forte. Diziam que os dois se pareciam. Um pouco fisicamente. Um pouco na personalidade.
Depois de espreguiçar-se. Bocejou e tocou a boca com suas mãos grandes. Agora gostava delas. Não tinha mais vergonha de dizer ou mostra-las aos outros. Se divertia com a reação das pessoas.
Andou até a frente do espelho. Seu irmão vivia dizendo que suas pernas eram tortas ou seus pés. Nunca conseguiu perceber. Mas, sabia que havia algo meio torto por ali. Estava de pijama. Aquele velhinho e largo que não marcava nada e a deixava totalmente confortável.
A janela estava aberta. Uma mensagem silenciosa deixada por sua mãe, avisando que já estava na hora de se levantar. Os raios de sol invadiam todo o quarto. Iluminando tudo por onde passava. Seu corpo também. A parte clareada pelo sol estava mais brilhante. Um pouco mais amarela. Não sabia dizer sua cor realmente. Era morena. Nem escura, nem clara. Uma mistura de pai negro e mãe branca. Café com leite. Leite com toddy.
Tinha algumas machas pela pele. Machas de sol. Machas da vida. Aquelas pintinhas suavemente delicadas. Eram características de sua fisionomia, já que possuía diversas espalhadas pelo corpo.
As mãos ainda estavam na boca. A parte que mais gostava em si mesma. Esse fragmento de si que havia puxado da mãe. Era rosada. Pequena e contornada. Com um perfeito V no meio. Igual a de sua mãe. Seus lábios não eram cheios demais nem totalmente finos. Quando sorria seu lábio superior afinava, enquanto o inferior não. 
Aquela parte sabia ser delicada. Suave e grossa. Sensual e Vulnerável. Sabia rir de verdade e apenas ser educada. Sabia de risadas escondidas em momentos impróprios. Sabia de tudo.
Ela espirrou. E riu. Seu nariz era engraçado. Pequeno e também achatado. Mas, era fofo. Quando sofreu um acidente de carro, acabou quebrando-o. Fato que, segundo sua mãe deixou seu nariz originalmente achatado, mais achatado ainda. Ela concorda.
Passou as mãos pelos olhos limpado-os, tentando de se livrar do sono. Não tinha olhos azuis, muito menos verdes. Eram castanhos. Como seus cabelos. Normais eu diria. Eram a cor mais comum de se ver em outros olhos. 
Mas, em dias como este, eles brilhavam. E a deixavam linda. E ela se sentia linda. Mesmo com os cabelos emaranhados e usando um pijama velho com um furo nas costas. 
Eram em dias como aqueles, que sua beleza comum irradiava por seus poros alegria de viver. Alegria de ser diferente e igual.
Naquele dia ela se aceitava. Aceitava suas pernas grossas. Aceitava ter um olho um pouco maior que o outro. Suas orelhas e seus dedos dos pés. Aceitava o fator encolhimento de cabelos cacheados. 
Aceitava tudo aquilo que não se encaixava nos padrões de beleza. Mas, que por influência do destino, a deixavam linda.

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