sábado, 31 de agosto de 2013

Texto : Clichê

















Enquanto caminho pelas ruas da cidade meus olhos procuram depressa por aquele familiar carro branco, sem nada encontrar.
Sinto aquela pontada de frustração também familiar chegar. Droga! Penso. Devia ter saído de casa mais cedo.
Continuo minha busca, agora já não animada. Mas quando atravesso a rua vejo o que quero ver desde o momento em que acordei.
O carro para ao meu lado, meu coração para, eu paro e já não sei mais como é respirar, sentimentos clichês eu sei.
Me sinto em um daqueles filmes em que tudo acontece em câmera lenta.
O vidro abaixa devagar com um barulho estridente que não combina nada com o momento. Me lembro que tenho que respirar graças ao reflexo no vidro escuro que me diz que estou vermelha.
Solto um suspiro aliviada quando vejo o seu boné, é ele. Eu sei que é, eu conheço aquele boné porque aliás foi eu que comprei.
O vidro trava. Fico impaciente.
Eu já disse para ele mandar concertar aquele vidro um milhão de vezes e sempre ouço a mesma resposta - amanhã eu levo, ele diz. Mas esse "amanhã" nunca chega.
Depois de uma luta acirrada entre o vidro do carro e o motorista, o vidro acaba cedendo e desce, dessa vez mais rápido tirando todo o clima da câmera lenta.
Prendo a respiração novamente enquanto seus olhos se prendem nos meus. Será que algum dia vou meu cansar de olha-lo? 
Ele dá aquele sorriso torto que eu tanto amo e eu retribuo da melhor maneira que posso.
Entro no carro com um único pensamento. Tem alguma coisa nele que eu ainda não ame?

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